O ENEM frequentemente traz questões que abordam literatura afro-brasileira, identidade, resistência e crítica social. O poema “Quebranto”, de Cuti, é um exemplo marcante dessa abordagem, revelando a internalização da violência psicológica e estrutural causada pelo racismo. Neste post, analisamos profundamente esta questão, destrinchando cada detalhe e explicando por que a alternativa correta é a que melhor dialoga com o texto.
Questão 10 — Texto e Contextualização
“às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo e me dou porrada
às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser pela porta de serviço
às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno começo
fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto e denuncio
o ponto em que me entrego.”
O poema apresenta a dor psicológica do eu lírico, resultado da internalização do racismo estrutural. Ele se vê através do olhar opressor — policial, porteiro, acusador — e reproduz esses papéis contra si mesmo.
Interpretação Profunda do Poema
O eu lírico não descreve apenas o preconceito vindo de fora: ele mostra como esse preconceito se infiltra subjetivamente, criando uma relação traumática com sua própria identidade.
Observe as imagens:
- “sou o policial que me suspeito” — internalização da vigilância racial.
- “sou o porteiro não me deixando entrar em mim mesmo” — perda de identidade e autoexclusão.
- “não me vejo... entupido com a visão deles” — o eu lírico já não se enxerga por si, mas pelo olhar racista da sociedade.
Esses versos mostram a violência simbólica e psicológica que acompanha a formação de pessoas negras em uma sociedade racista.
Análise das Alternativas
A) Incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.
Esta alternativa está parcialmente correta, pois há internalização da opressão. Entretanto, não é o foco central da questão. O poema vai além da incorporação: ele mostra uma profunda ruptura identitária.
B) Submete-se à discriminação como meio de fortalecimento.
Incorreta. Nada no texto indica fortalecimento ou resistência. Há sofrimento, dor e autoacusação.
C) Engaja-se na denúncia do passado de opressão e injustiças.
Apesar de o poema ter caráter crítico, ele não está “denunciando” diretamente o passado histórico, mas sim retratando um conflito íntimo do eu lírico.
D) Sofre uma perda de identidade e de noção de pertencimento. ✔ (CORRETA)
Esta é a alternativa ideal.
O eu lírico vive um processo de desidentificação consigo mesmo, provocado pela internalização de papéis sociais que o inferiorizam.
Ele se trata como um estranho, um suspeito, um criminoso, alguém digno de punição — exatamente como a sociedade racista o enxerga.
Portanto, o poema revela:
→ ruptura da identidade, perda de pertencimento, autoacusação e fragmentação psicológica.
E) Acredita esporadicamente na utopia de uma sociedade igualitária.
Incorreta. O poema é introspectivo, doloroso e não apresenta nenhuma perspectiva utópica.
Resposta correta: D
Tópicos Extras para Aprofundar o Conteúdo
1. Literatura Negra Brasileira
A obra de Cuti integra a chamada “Negroesia”, que busca dar voz à experiência negra de forma direta, visceral e politizada. Essa literatura não suaviza a dor, mas a apresenta como denúncia e memória.
2. Racismo Internalizado
Conceito psicológico que explica como vítimas de racismo podem absorver discursos discriminatórios. Isso explica versos como “sou o policial que me suspeito”.
3. O corpo negro como alvo de vigilância
No poema, o eu lírico se enxerga como perpetuamente suspeito — uma crítica às estruturas sociais que criminalizam identidades.
4. Representação simbólica do “quebranto”
O título evoca a ideia de mal-estar, de encantamento negativo. Aqui, é o efeito psicológico da violência racista sobre a subjetividade.
5. Exercício de leitura crítica no ENEM
- Observe como figuras poéticas representam conflitos sociais.
- Procure palavras que indicam dor, ruptura ou conflito interno.
- Compare alternativas e descarte as que generalizam demais.
Mensagem Final
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